Não faltaram moção, lágrimas e dignidade na chegada dos 176 médicos cubanos,
que desembarcaram neste sábado à noite em Brasília, para um trabalho
indispensável em municípios brasileiros, mais de 700, ainda sem qualquer
assistência médica.

Quando aqueles cidadãos cubanos, muitos deles negros, muitas mulheres, com bandeirolas brasileiras e cubanas nas mãos, pisaram o solo brasileiro, ali estava o retrato do enorme progresso social, educacional e sanitário alcançado pela Revolução Cubana. Mas, também, uma prova concreta de que a integração da América Latina está avançando; não é só comércio, é também saúde.
O Brasil coopera com Cuba na construção do Complexo Portuário de Mariel
- sua mais importante obra de infraestrutura
atualmente - e Cuba coopera com o Brasil preenchendo uma lacuna imensa: a
falta de médicos.
A campanha conservadora contra a integração latino-americana sofrerá um revés
tremendo quando o programa Mais Médicos , começar a apresentar seus
efeitos concretos. Esses resultados terão a força para revelar o teor
medieval das críticas feitas pelas representações médicas e pela mídia
teleguiada pela publicidade da indústria farmacêutica.
Tendo em vista o volume de desinformação que circulou contra a vinda de médicos
estrangeiros, mas contra os médicos cubanos em especial, é obrigatório
travar a batalha das ideias, primeiramente, em defesa da Revolução Cubana como
uma conquista de toda a humanidade.
Cercada, sabotada, agredida, a Revolução Cubana, que antes de 1959,
possuía os mais tenebrosos indicadores sociais, analfabetismo massivo,
mortalidade infantil indecente, desemprego e atraso social generalizado,
consegue libertar-se da condição de colônia, e, mesmo sem ter uma base
industrial como a brasileira, por exemplo, e passa a exportar médicos,
professores, vacinas, desportistas. Exporta, principalmente, exemplos!
Esse salto histórico da Revolução Cubana deixa desconcertada a crítica,
seja emanada pela mídia colonizada pelas lucrativas transnacionais
fabricantes de fármacos ou equipamentos hospitalares, seja a crítica oligarquia
difundida pelas representações médicas. Os que questionam a qualidade da
formação profissional dos médicos cubanos são desafiados a responder por que a
mortalidade infantil em Cuba é das mais baixas do mundo, sendo inferior,
inclusive, àquela registrada no Estado de Washington, nos EUA?
Cuba e a libertação africana
Vale lembrar que Cuba possuía, antes de 1959, pouco mais de 6 mil médicos,
dos quais, a metade deixou o país porque não queria perder privilégios, nem
concordava com a socialização da saúde. Apenas cinco décadas depois, é esta
mesma Cuba que tem capacidade de exportar milhares de médicos para socorrer o
povo brasileiro de uma indigência grave construída por um sistema de
saúde ainda determinado pelos poderosos interesses das indústrias hospitalar,
farmacêutica e de equipamentos, privilegiando a noção de uma medicina como um
negócio, uma atividade empresarial a mais, não como um direito, como determina
nossa constituição.
Já em 1963, quando a Revolução na Argélia precisou, iniciou-se a prática de
cubana de enviar brigadas médicos aos povos irmãos. Ensanguentada pela herança
da dominação francesa, a Revolução Argelina encontrou em Cuba a fraternidade
concreta, quando ainda não havia na Ilha um contingente médico tão numeroso
como o existente atualmente. Predominou sempre na Revolução Cubana a ideia de
que em matéria de solidariedade internacional comparte-se o que se tem,
não o que lhe sobra. Foi exatamente ali na Argélia que se estabeleceram laços
indestrutíveis entre a Revolução Cubana e os diversos movimentos de
libertação da África. A partir daí, Cuba participou com brigadas
militares e médicas em diversos processos de libertação nacional do continente.
De tal sorte que, em 1966, a primeira campanha de vacinação contra a
poliomielite realizada no Congo, foi organizada por médicos cubanos!
Os CRMs não sabem que a poliomielite foi erradicada em Cuba décadas antes de
ser erradicada no Brasil?
Será o Revalida capaz de avaliar a dimensão libertadora da medicina
cubana?
Quando Angola foi invadida por tropas do exército racista da África do Sul,
baseado nas supremas leis do internacionalismo proletário, Agostinho Neto,
presidente angolano, também médico e poeta, solicita a Fidel Castro ajuda
militar para garantir a soberania da nação africana. Uma das mais monumentais
obras de solidariedade foi realizada por Cuba que, ao todo, enviou a Angola,
cerca de 400 mil homens e mulheres para, ao lado dos angolanos e namíbios, expulsar
as tropas imperialistas sul-africanas tanto de Angola como da Namíbia. E sob a
ameaça de uma bomba atômica, que Israel ofereceu à África do Sul,
argumentando que as tropas cubanas tinham que ser dizimadas porque pretendiam
chegar até Pretória...
Na heroica Batalha de Cuito Cuanavale - que todos os jornalistas,
historiadores, militantes deveriam conhecer a fundo -
lá estavam as tropas cubanas, mas lá estavam também as brigadas médicas de
Cuba, que se espalharam por várias pontos de Angola. A vitória de Angola e da
Namíbia contra a invasão da África do Sul, foi também a derrota do regime
do Apartheid. Citemos Mandela: “ A Batalha de Cuito Cuanavale foi o começo do
fim do Apartheid. Devemos o fim do Apartheid a Cuba!”.
Qual exame Revalida será capaz de dimensionar adequadamente o desempenho de um
médico cubano em Cuito Cuanavale, com sua maleta de instrumentos numa das mãos
e na outra uma metralhadora, livrando a humanidade da crueldade do
Apartheid? Como dimensionar o bem que o fim do Apartheid, com a decisiva
participação cubana, proporcionou para a saúde social da História da
Humanidade?
As crianças de Chernobyl em Cuba
O sentido de solidariedade internacionalista está tão plasmado na sociedade
cubana que, quando aquele terrível acidente ocorreu na Usina Nuclear de
Chernobyl, em 1986, o estado cubano recebeu, das organizações dos
Pioneiros - que congregam crianças e adolescentes
cubanos - a proposta de oferecer tratamento médico às
crianças contaminadas pela radioatividade vazada no desastre. Um documentário
realizado pelo extinto Programa Estação Ciência, dirigido pelo jornalista Hélio
Doyle, exibido com frequência TV Cidade Livre de Brasília, registra como Cuba
compartilhou seus recursos médicos e hospitalares, mas, sobretudo, sua fraterna
solidariedade com cerca de 3 mil crianças russas que foram levadas para
tratamento na Ilha, nas instalações dos Pioneiros, em Tarará.
Destaque-se, primeiramente, que a ideia partiu dos Pioneiros. Segundo, que Cuba
não se colocava na condição de doadora, mas apenas cumprindo um dever
solidário. Lembravam que o povo soviético havia sido solidário com Cuba quando
os EUA iniciaram o bloqueio contra a Ilha cortando a cota de petróleo e do
açúcar, suspendendo o comércio bilateral, na década de 60. A URSS passou a
comprar todo o açúcar cubano, pelo dobro do preço do mercado internacional, e a
abastecer Cuba de petróleo, pela metade do preço de mercado mundial. São
páginas escritas, em uma outra lógica, solidária, fraterna, socialista. É de se
imaginar o quanto os dirigentes das representações médicas brasileiras poderiam
aprender com aquelas crianças cubanas que ofertaram tratamento às 3 mil
crianças russas, um contingente menor que o de médicos cubanos que virão para o
Brasil?
Impublicável
A cooperação entre Brasil e Cuba em matéria de saúde não está iniciando-se
agora. Durante o governo Sarney, recém re-estabelecidas as relações bilaterais,
em 1986, foram as vacinas cubanas contra a meningite que permitiram
ao nosso país enfrentar aquele surto. Na época, a mídia teleguiada também
fez uma sórdida campanha contra o governo Sarney, primeiro por reatar as
relações, mas também por comprar grandes lotes da vacina desenvolvida pela
avançada ciência de Cuba. De modo venenoso, tentou-se desqualificar as
vacinas, afirmando serem de qualidade duvidosa, tal como agora atacam a
medicina cubana. Na época, foram as vacinas cubanas que permitiram
controlar aquele surto e salvar vidas. Mas, também trouxeram, por meio do
exemplo, a possibilidade de que aprendêssemos um pouco dos valores e das
conquistas de uma revolução. Afinal, por que um país com poucos recursos, com
uma base industrial muito mais reduzida, conseguia não apenas elevar
vertiginosamente o padrão de saúde de seu povo, mas, também desenvolver uma
tecnologia com capacidade para produzir e exportar vacinas, enquanto o
Brasil, com uma indústria muito mais expandida, capaz de produzir carros,
navios e aviões, não tinha capacidade para defender seu próprio povo de
um surto de meningite? São sagradas as prioridades de uma revolução. E é por
isso, que, ainda hoje, a sexta maior economia do mundo, se vê na
obrigação de recorrer a Cuba para não permitir a continuidade de um crime
social configurado na não prestação de atendimento médico a milhões de
brasileiros.
Mais recentemente, quando a Organização Mundial da Saúde convocou a indústria
farmacêutica internacional a produzir vacinas para combater um tenebroso surto
de febre amarela que se espalhou pela África, obteve como resposta desta
indústria o mais sonoro e insensível NÃO. Os preços que a OMS podia pagar pelas
vacinas não eram, segundo as transnacionais farmacêuticas, apetitosos.
Milhões de vidas africanas passaram correr risco, não fosse a cooperação
entre dois laboratórios estatais, o Instituto Bio Manguinhos, brasileiro, e
o Instituto Finley, cubano. Essa cooperação permitiu a produção, até o
momento, de 19 milhões de doses da vacina que a África necessitava, a um preço
90 por cento menor que o preço do mercado internacional.
Onde foi publicada esta informação? Apenas na Telesur e na imprensa cubana. A ditadura dos anúncios da indústria
farmacêutica, que dita a linha editorial da mídia brasileira em relação
ao programa Mais Médicos e à cooperação da Medicina de Cuba, simplesmente
impediu que o grande público brasileiro tomasse conhecimento desta
importantíssima cooperação estatal brasileiro-cubana.
Os médicos cubanos e o furacão Katrina
Para dimensionar a inqualificável onda de insultos que os médicos cubanos
vêm recebendo aqui na mídia oligárquica, lembremos um fato também sonegado por
esta mesma mídia, o que revela suas dificuldades monumentais para o exercício
do jornalismo como missão pública. Quando ocorre o trágico furacão Katrina, que
devasta Nova Orleans, deixando uma população negra e pobre ao abandono, dada a
incapacidade e o desinteresse do governo dos EUA naquela oportunidade, em
prestar-lhe socorro, também foi Cuba que colocou à disposição
do governo estadunidense - malgrado toda a hostilidade
ilegal deste para com a Ilha - um contingente de
1300 médicos , postados no Aeroporto de Havana, com capacidade de
chegar prestar ajuda à população afetada pelo furacão. Aguardavam apenas
autorização para o embarque, e em questão de 3 horas de voo estariam em
Nova Orleans salvando vidas. Esta autorização nunca chegou da Casa
Branca. A resposta animalesca do presidente George Bush foi um sonoro
NÃO à oferta de Cuba, o que tampouco foi divulgado pela mídia
oligárquica, provavelmente para protegê-lo do vexame de ver difundido seu tosco
caráter, que tal recusa representava. Os EUA estão sempre prontos para
enviar militares e mercenários pelo mundo. Mas, são incapazes de prestar ajuda
ao seu próprio povo, e também arrogantes o suficiente para permitir uma ajuda
de Cuba à população pobre e negra afetada pelo furacão.
Uma Escola de Medicina para outros povos
Também não circulam informações aqui de que Cuba, após o furacão Mity, que
devastou a America Central e parte do Caribe, decide montar uma Escola
Latino-americana de Medicina, que, em pouco mais de 10 anos de funcionamento,
já formou mais de 10 mil médicos estrangeiros, gratuitamente. Entre eles,
500 jovens negros e pobres dos EUA, moradores dos bairros do Harlem e do
Brooklin. Eles me revelaram que se tivessem continuado a viver ali, eram fortes
candidatos a serem presa fácil do narcotráfico. Frisavam que, estar ali em
Cuba, formando-se em medicina, gratuitamente, era uma possibilidade que a maior
potência capitalista do mundo não lhes oferecia. Há, estudando na ELAM,
cerca de uma centena de jovens do MST, filhos de assentados da reforma
agrária. Isto significa que Cuba compartilha com vários países do mundo
seus modestos recursos. Também estudam lá cerca de 600 jovens do Timor Leste,
sendo que existem 40 médicos cubanos trabalhando já agora no Timor. O tipo de
exame Revalida seria capaz de dimensionar esta solidariedade cubana com a saúde
dos povos?
Ampliar a integração em outras áreas
Também não se divulgou por aqui, que Cuba montou três Faculdades de
Medicina na África, (Eritreia, Gambia e Guiné Equatorial), em pleno
funcionamento, com professores cubanos. Toda esta campanha de insultos contra
Cuba e os médicos cubanos, abre uma boa possibilidade para discutir e
conhecer mais a fundo todas estas conquistas da Revolução Cubana, mas,
especialmente, para que as forcas progressistas reflitam sobre quantas
outras possibilidades de cooperação existem entre Brasil e Cuba, em muitas
outras áreas.
Mas, serve também para reavaliar a posição de certos parlamentares médicos da
esquerda no Brasil que se opõe, inexplicavelmente, ao Programa Mais
Médicos, alguns chegando, ao absurdo de terem apresentado projetos
de lei proibindo, pelo prazo de 10 anos, a abertura de qualquer novo curso de
medicina no Brasil.
Qualificar o debate sobre a integração
Enfim, um debate democrático e qualificado em torno do programa Mais
Médicos, da presença de médicos cubanos aqui no Brasil e em mais de 70 países,
e também, sobre as conquistas da Revolução Cubana, deve ser organizado pelos
partidos e sindicatos, pelo movimento estudantil, pelos movimentos sociais,
pela Solidariedade a Cuba, pelas TVs e rádios comunitárias, como forma de
impulsionar a integração da America Latina, que, neste episódio, está
demonstrando o quanto pode ser útil à população mais pobre. A TV Brasil pode
cumprir uma função muito útil, pode divulgar documentários já existentes sobre
o trabalho de médicos em regiões inóspitas e adversas em diversos países.
É preciso expandir esta integração, avançar pela educação, pela
informação, não havendo justificativas para que o Brasil ainda não esteja
conectado com a Telesur, por exemplo, que divulgado amplo material jornalístico
informando que 3 milhões e meio de cidadãos latino-americanos já foram salvos
da cegueira graças a Operação Milagro, pela qual médicos cubanos e
venezuelanos realizam, gratuitamente, cirurgias de cataratas em vários países
da região. Enquanto o povo argentino, por exemplo, já pode sintonizar
gratuitamente a Telesur e informar-se de tudo isto, o povo brasileiro está impedido,
praticamente, de receber informações que revelam o andamento da integração da
America Latina. Mas, com a chegada dos médicos cubanos, a integração será cada
vez mais pauta da agenda do debate político nacional e receberá ,
certamente, um impulso político e social, notável, pois o povo
brasileiro, saberá , com nobreza e humanismo, valorizar e apoiar o programa
Mais Médicos. Alias, é exatamente isto o que tanto apavora a medicina
capitalista.
Quem pagará a conta da demora?
A presidenta Dilma tem inteira razão em convocar os Médicos Cubanos, algo
que já poderia ter sido feito há mais tempo, amenizando a dor e o sofrimento de
milhões de brasileiros abandonados por um sistema de saúde e por uma
mentalidade de parcelas das representações médicas que, por mais absurdo que
pareça, ainda tentam justificar este abandono. Aliás, com a determinação da
presidenta Dilma está absolutamente revelada a importância da integração da
América Latina, não havendo justificativas para que esta modalidade de
integração nas esferas sociais, não avance também para outras áreas, como
a educação, por exemplo.
Foi exatamente com o método cubano denominado “Yo, si, puedo”, que
Venezuela, Bolívia, Equador são países declarados pela UNESCO como “Territórios
Livres do Analfabetismo”, sempre com a participação direta de professores
cubanos.
Muito em breve, será a Nicarágua, que vai recuperar aquele galardão, que já
havia conquistado durante a Revolução Sandinista, mas depois perdeu, na
era neoliberal.
Por quanto tempo o Brasil terá apenas projetos pilotos, em apenas 3 cidades,
com o método de alfabetização cubano, que, aliás, já tem absoluta comprovação e
reconhecimento mundiais? Que espera a sexta economia do mundo em
convocar ainda mais a cooperação cubana para erradicar o analfabetismo? Quem
pagará a conta desta injustificável demora?
Termino com a declaração da Dra. Milagro Cárdenas Lopes, cubana, negra,
61 anos “Somos médicos por vocação, não nos interessa um salário, fazemos por
amor”, afirmou. Em seguida, dirigiu-se com seus companheiros para os
ônibus organizados pelo Exército Brasileiro, que cuida de seu alojamento. Sinal
de que a integração está escrevendo uma nova página na história da América
Latina.
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