1. “A crise
vem de fora.”
2. “A
política neoliberal vai aumentar o desemprego.”
3. “A
oposição quer acabar com o reajuste do salário mínimo.”
4. “A
política neoliberal proposta pela oposição vai promover arrocho salarial.”
5. “Programa
de Marina reduz a pó política industrial.”
6. “A
política monetária foi exitosa.”
7.
“Precisamos de um pouco mais de inflação para não perder empregos.”
8. “As
contas públicas estão absolutamente organizadas. O superávit primário, embora
menor do que em 2008, é um dos maiores do mundo. Dizer que há uma
desorganização fiscal é um absurdo.”
9. “Nunca
foi feito tanto pelo pobre neste país.”
10. “A
oposição faz terrorismo eleitoral.”
Numa época de mentiras
universais, dizer a verdade é um ato revolucionário. Se George Orwell estivesse
por ai, seria prontamente acusado de terrorismo eleitoral.
Enquanto insistirem em
falar mentiras sobre os “neoliberais”, cumprirei o compromisso de falar
verdades sobre o governo.
Há dois elementos
constrangedores envolvendo o governo Dilma: a incompetência e a desonestidade
intelectual - essa última conhecida popularmente como hábito da mentira.
Inventam o que querem
para evitarem a mudança de endereço. Abaixo listo as dez mentiras que mais me
incomodam, cujas implicações ao seu patrimônio podem ser substanciais.
Restrinjo-me a questões
de economia e finanças. Não imagino que a mitomania limite-se a essa área, mas
prefiro manter-me no escopo, por uma questão de pertinência desta newsletter.
Ao não reconhecer os
erros, mantém-se a rota errada da política econômica. Bateremos de frente com
uma crise financeira em 2015.
1. “A crise vem de fora.”
Esse é o discurso oficial
para justificar a recessão técnica em curso no Brasil. O que os dados podem nos
dizer sobre isso? Comecemos do mais simples: o crescimento econômico do Governo
Dilma será, na média, dois pontos percentuais menor àquele apresentado pela
América Latina. Nos governos Lula e FHC, avançamos na mesma velocidade dos
vizinhos.
Indo além, há de se
lembrar que a economia mundial cresceu 3,9% em 2011, 3% ao ano entre 2012 e
2013, e deve emplacar mais 3,6% em 2014. Nada mal.
Comparando com o pessoal
mais aqui ao lado especificamente, Chile, Colômbia e Peru, exatamente aqueles
que adotaram políticas econômicas ortodoxas e perseguiram uma agenda de
reformas na América Latina, cresceram 4,1%, 4,0% e 5,6% ao ano, entre 2008 e
2013.
Enquanto isso, a evolução
média do PIB brasileiro na administração Dilma deve ser de 1,7% ao ano.
A retórica oficial,
desprovida de qualquer embasamento empírico, continua ser de que a crise vem de
fora. Aquela marolinha identificada pelo presidente Lula, lá em 2008, seis anos
atrás, ainda deixando suas mazelas.
2. “A política neoliberal vai aumentar o
desemprego.”
Não há como desafiar o
óbvio de que o produto agregado (PIB) depende dos fatores de produção, capital
e trabalho. Ora, com o PIB desabando por conta da política econômica
heterodoxa, cedo ou tarde bateremos no emprego.
Podemos não conseguir
precisar qual a exata função de produção, ou seja, de como o PIB se relaciona
com o nível de emprego, mas não há como contestar a existência de relação entre
as variáveis.
O crescimento econômico
da era Dilma é o menor desde Floriano Peixoto, governo terminado em 1894,
subsequente à crise do encilhamento. Há uma transmissão óbvia desse
comportamento para o emprego.
Os dados do Caged de maio
apontaram a menor geração de postos de trabalho desde 1992. Em sequência, junho
foi o pior desde 1998. E julho, o pior desde 1999.
Quem vai gerar desemprego
é a nova matriz econômica - não o fez ainda simplesmente porque essa é a última
variável a reagir (e a única que ainda não foi destruída).
3. “A oposição quer acabar com o reajuste
do salário mínimo.”
Essa é uma mentira
escabrosa por vários motivos. O primeiro é trivial: os dois candidatos da
oposição já se comprometeram, em dezenas de oportunidades, em manter a política
de reajuste de salário mínimo.
Ademais, quando Dilma se
coloca como a protetora do salário mínimo, está simplesmente contrariando as
estatísticas. O aumento real do salário mínimo foi de 4,7% ao ano entre 1994 e
2002, de 5,5% ao ano entre 2003 e 2010, e de 3,5% ao ano entre 2011 e 2013.
Ou seja, o reajuste do
mínimo na era Dilma é inferior àquele implementado por Lula e também ao
observado no período FHC. Ainda assim, Dilma se coloca como o bastião em favor
do salário mínimo.
4. “A política neoliberal proposta pela
oposição vai promover arrocho salarial.”
Esse ponto, obviamente,
guarda relação com o anterior. Destaquei-o mesmo assim porque denota a doença
de ilusão monetária ou uma tentativa descarada de enganar a população.
Arrocho salarial já vem
sendo promovido pela atual política econômica, por meio da disparada da
inflação. O salário nominal, o quanto o sujeito recebe em reais no final do
mês, não interessa per se. O relevante é como e quanto esse numerário pode ser
transformado em poder de compra - isso, evidentemente, tem sido maltratado pela
leniência no combate à inflação.
Precisamos dar
profundidade mínima ao debate. Se você consegue aumentos sistemáticos de
salário acima da produtividade do trabalhador, a contrapartida óbvia no longo
prazo é a inflação, que acaba reduzindo o próprio salário real.
O que os “neoliberais”
querem é perseguir aumentos de produtividade maiores e duradouros. Isso
permitiria dar incrementos de salário substanciais, sem impactar a inflação.
Caso contrário, aumentos
do salário nominal serão corroídos pela inflação.
5. “Programa de Marina reduz a pó
política industrial.”
A presidente Dilma
realmente não precisa ter essa preocupação, pois ela mesma já fez o serviço. O
Plano Brasil Maior, lançado em 2010 com metas para 2014, não conseguiu entregar
sequer um de seus vários objetivos.
Dilma oferece
simplesmente o maior processo de desindustrialização da história brasileira,
fazendo o presidente da Fiesp afirmar categoricamente que somente louco investe
hoje no Brasil.
Seria pertinente
preocupar-se com a própria política industrial antes de amedrontar-se com o
programa alheio.
Quem defende uma política
de campeões nacionais, em que se escolhem a priori os vencedores da prática
concorrencial desafiando a lógica de mercado, não entende absolutamente nada de
empreendedorismo e política industrial.
O maior elogio que Marina
poderia receber à sua política industrial é a desconfiança de Dilma.
6. “A política monetária foi exitosa.”
A frase foi proferida por
Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, em seminário nos EUA sobre
política monetária. A inflação brasileira tem sistematicamente namorado o teto
da meta, de 6,50% em 12 meses, ignorando o princípio básico de um sistema de
metas, em que o centro do intervalo deve ser perseguido. A banda de tolerância
de dois pontos existe apenas para abarcar choques exógenos.
A rigor, a inflação em 12
meses está até acima do teto. O IPCA de agosto aponta variação de 6,51% em 12
meses, estourando o limite superior do intervalo.
Transformamos o teto no
nosso objetivo e represamos cerca de dois pontos de inflação através do controle
de preços de combustíveis, energia e câmbio.
Esse é o tipo de êxito
que esperamos da política econômica?
7. “Precisamos de um pouco mais de
inflação para não perder empregos.”
Para ser justo, a frase,
ao menos que seja de meu conhecimento, não foi dita ipsis verbis por nenhum
membro do Governo. Entretanto, a julgar pelas decisões e diretrizes de política
monetária, parece permanecer o racional da administração petista.
O velho trade-off entre
inflação e crescimento, em pleno século XXI?
Bom, antes de entrar no
debate acadêmico, pondero que poderia até ser verdade se houvesse, de fato,
crescimento. Conforme supracitado, não é o caso.
Ignorando esse fato e
fingindo que vivemos crescimento econômico pujante, a questão sobre o trade-off
entre inflação e crescimento parece apoiar-se numa discussão tacanha sobre a
Curva de Phillips.
O debate até faria
sentido se estivéssemos nos idos de 1970. Dai em diante, Friedman, Phelps e
outros destruíram o argumento de mais inflação, mais emprego.
A partir da síntese de 1976,
naquilo que ficou batizado de crítica de Lucas, com trabalhos posteriores
sobretudo de Kydland e Prescott, a fronteira do conhecimento passou a
incorporar a ideia de que o trade-off entre inflação e desemprego existe apenas
a curtíssimo prazo.
Ao trabalhar com uma
inflação sistematicamente mais alta, rapidamente voltamos a um novo equilíbrio,
com nível de preços maior e o mesmo nível de emprego original.
E, sim, o espaço aqui
está aberto para o pessoal da Unicamp rebater o argumento de Lucas (professor
Belluzzo incluindo, sem nenhum tipo de enfrentamento aqui; convite educada e
genuinamente a um derbi das ideias). Criticam-nos por ouvir apenas a oposição e
ignoram que eles declinam nosso convites - só pode haver vozes governistas e/ou
heterodoxas em nossos eventos se elas aceitarem participar, certo? Lembre-se:
fizemos o convite ao competente Nelson Barbosa, que, infelizmente, não pode
comparecer por incompatibilidade de agenda.
8. “As contas públicas estão
absolutamente organizadas. O superávit primário, embora menor do que em 2008, é
um dos maiores do mundo. Dizer que há uma desorganização fiscal é um absurdo.”
A preciosidade foi dita
pelo ministro Guido Mantega em entrevista ao jornal Valor. O superávit primário
do setor público não é somente menor àquele de 2008. No primeiro semestre, foi
o menor da história, em R$ 29,4 bilhões.
Nos últimos 12 meses, a
variável marca 1,4% do PIB, sendo metade derivado de receitas extraordinárias,
como Refis e leilão de libra. E se considerarmos o atraso em pagamentos em
subsídios, precatórios e repasses aos bancos públicos para benefícios sociais,
provavelmente não passamos de 0,5% do PIB.
O déficit nominal bate 4%
do PIB, flertando com aumento de dívida, maiores impostos e/ou mais inflação à
frente. Essa é a herança que a “absoluta organização das contas públicas está
nos deixando.”
9. “Nunca foi feito tanto pelo pobre
neste país.”
Intuitivamente, você já
poderia desconfiar da afirmação quando pensa na inflação, que é um fenômeno
essencialmente ruim para as classes mais baixas. Os abastados têm um estoque de
riqueza aplicada em ativos que remuneram acima da inflação. Logo, estão em
grande parte protegidos. A inflação é um instrumento clássico de concentração
de riqueza.
Mas há de ser além da
simples intuição, evidentemente. Aqui, a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios) de 2012, última disponível, é emblemática.
A constatação principal é
de que, depois de 10 anos ininterruptos de melhora, a desigualdade de renda
para de evoluir em 2012. O coeficiente de Gini, medida clássica de equidade,
para de cair e as curvas de Lorenz de 2011 e 2012 são sobrepostas.
Em adição, a relação
existente entre a renda apropriada pelo 1% mais rico da população e os 50% mais
pobres aumenta de 0,66 para 0,69. Ou seja, o resultado é simples: quebramos uma
sequência de 10 anos de avanço da distribuição de renda no Brasil.
A política econômica
heterodoxa não cresce o bolo e também não o distribui de forma mais equitativa.
10. “A oposição faz terrorismo
eleitoral.”
Se você compactua com um
dos nove pontos anteriores, você é um terrorista eleitoral, egoísta e
interessado apenas em si mesmo. Provavelmente, é financiado por um dos
candidatos de oposição.
Enquanto isso, a situação
acusa a candidata oposicionista de homofóbica e de semelhanças com Fernando
Collor. Sim, ele mesmo, parte da base de apoio da....situação.
Seríamos nós, analistas e
economistas, os terroristas?
Essa é a herança que fica para 2015. Você tem dois
caminhos a adotar: o primeiro é esperar as consequências materiais dessa gestão
desastrosa sobre seu patrimônio, e o segundo é começar a se mexer, de modo a
proteger ou até mesmo aumentar suas economias.
Nenhum comentário:
Postar um comentário