A redução da
jornada de trabalho no Brasil para 40 horas semanais é uma demanda histórica
dos trabalhadores e representa, sobretudo, um novo marco civilizatório para a
sociedade brasileira.
Contrariando
os argumentos de uma parcela de empresários mais conservadores, a redução da
jornada de trabalho para 40 horas semanais sem redução de salários, trará
grandes benefícios para a sociedade brasileira e os impactos dessa medida na
economia deverão ser absorvidos sem traumas.
Abaixo
destacaremos alguns argumentos que dão sustentação a posposta de redução de
jornada de trabalho sem redução de salários:
ARGUMENTOS RELACIONADOS AO TEMPO DE TRABALHO:
UM TEMPO EXTENSO, INTENSO E FLEXÍVEL
UM TEMPO EXTENSO, INTENSO E FLEXÍVEL
1. Redução do desemprego
A redução da
jornada de trabalho é um dos instrumentos para geração de novos postos de
trabalho e a conseqüente redução das altas taxas de desemprego. Se todos
trabalharem um pouco menos, todos poderão trabalhar.
2. Jornada normal de trabalho muito extensa
A jornada
normal de trabalho no Brasil é uma das maiores no mundo: 44 semanais desde
1988.
3. Jornada total de trabalho muito extensa
A jornada
total de trabalho é a soma da jornada normal de trabalho mais a hora extra. No
Brasil, além da extensa jornada normal de trabalho, não há limite semanal,
mensal ou anual para a execução de horas extras, o que torna a utilização de horas
extras no país uma das mais altas no mundo. Logo, a soma de uma elevada jornada
normal de trabalho e um alto número de horas extras faz com que o tempo total
de trabalho no Brasil seja um dos mais extensos.
4. Ritmo intenso do trabalho
O tempo de
trabalho total, além de extenso, está cada vez mais intenso, em função de
diversas inovações técnico-organizacionais implementadas pelas empresas (como a
polivalência, o just in time, a concorrência entre os grupos de trabalho, as
metas e a redução das pausas). Também em muito tem contribuído para essa
intensificação a implementação do banco de horas (isso porque, nas horas de
pico, os trabalhadores são chamados a trabalhar de forma intensa e nas horas de
baixa demanda são dispensados do trabalho).
5. Aumento da flexibilização da jornada de trabalho
Desde o final
dos anos 1990, verifica-se, no Brasil, um aumento da flexibilização do tempo de
trabalho. Assim, às antigas formas de flexibilização do tempo - como a hora
extra, o trabalho em turno, trabalho noturno, as férias coletivas -, somam-se
novas - como a jornada em tempo parcial, o banco de horas e o trabalho aos
domingos.
6. Aumento do número de doenças
Em função das
jornadas extensas, intensas e imprevisíveis, os trabalhadores têm ficado cada
vez mais doentes (estresse, depressão, hipertensão, distúrbios no sono e lesão
por esforços repetitivos, por exemplo).
ARGUMENTOS RELACIONADOS À ECONOMIA BRASILEIRA: CRESCIMENTO DA
ECONOMIA E DA PRODUTIVIDADE DO TRABALHO
7. Condições favoráveis da economia brasileira
A economia brasileira apresenta condições favoráveis para a redução da jornada de trabalho e limitação da hora extra, uma vez que:
A economia brasileira apresenta condições favoráveis para a redução da jornada de trabalho e limitação da hora extra, uma vez que:
* o país
apresentou crescimento econômico nos últimos cinco anos e com perspectivas
positivas para os próximos anos, pós-crise;
* a inflação
tem variações moderadas desde 2003;
* a redução da
jornada de trabalho é uma política de geração de postos de trabalho com baixo
risco monetário;
* indicadores
econômicos recentes demonstram que o Brasil tem tido um desempenho favorável
frente à crise mundial, os resultados alcançados do país são melhores que
diversos países.
8. Baixo percentual dos salários nos custos de produção
Conforme dados
da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em 1999, a participação dos
salários no custo da indústria de transformação era de 22%, em média.
Fazendo as
contas, uma redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais (de
9,09%) representaria um aumento no custo total de produção de apenas 1,99%.
Este
percentual é irrisório se considerarmos que o aumento da produtividade da
indústria, entre 1990 e 2000, foi de 113% e que, nos primeiros anos do século
XXI, os ganhos de produtividade foram de 27%. Portanto, o grande aumento de
produtividade alcançado desde 1988 (última redução da jornada de trabalho no
Brasil) leva a um pequeno aumento de custo gerado pela redução da jornada de
trabalho.
9. Baixo custo da mão-de-obra no Brasil
O custo da
mão-de-obra no Brasil é muito baixo, comparado a diversos países. O custo da
mão-de-obra na produção da indústria no país era em 2007 de: 5,96 dólares por
hora; nos EUA o custo era de 24,59 dólares por hora; na Inglaterra era de 29,73
dólares por hora; na Itália 28,23 dólares por hora; Canadá 28,91 dólares por
hora e Austrália 30,17 dólares por hora.
(Bureau of Labor Statistics)
(Bureau of Labor Statistics)
Dessa forma, a
redução da jornada de trabalho não traria nenhum prejuízo à competitividade das
empresas, sobretudo porque o diferencial na competitividade não está no custo
da mão-de-obra, mais sim nas vantagens sistêmicas que o país oferece. Como um
sistema financeiro a serviço do financiamento de capital de giro e de longo
prazo, com taxas de juros acessíveis, redes de institutos de pesquisa e
universidades voltadas para o desenvolvimento tecnológico, população com altas
taxas de escolaridade, trabalhadores especializados, infraestrutura
desenvolvida, entre outras vantagens.
10. Criação de um círculo virtuoso
Além dos
ganhos de produtividade verificados no passado e na conjuntura atual, eles
devem continuar a acontecer no futuro, o que explicita a necessidade de a
redução da jornada de trabalho ser permanente e contínua, acompanhando assim os
ganhos de produtividade. Cria-se então, um círculo virtuoso, isto é, os ganhos
de produtividade e a sua melhor distribuição estimulam o crescimento econômico
que, por sua vez, levam a mais aumento de produtividade.
11. Apropriação dos ganhos de produtividade
A redução da
jornada de trabalho é uma das possibilidades que os trabalhadores têm para se
apropriarem dos ganhos de produtividade por eles produzidos. Para se ter uma
idéia desse aspecto, a produtividade do setor automotivo brasileiro, medida
através da produção de veículos por trabalhador, cresceu entre 1990 e 2008,
284%, ou seja, em 1990 cada trabalhador da indústria automotiva produzia 6,6
carros por ano, em 2008 cada trabalhador produzia 25,4 veículos por ano.
12. Instrumento de distribuição de renda
A redução da
jornada de trabalho é uma das formas de os trabalhadores se apropriarem dos
ganhos de produtividade, logo, é um dos instrumentos para a distribuição de
renda no país.
13. Algumas categorias já reduziram a jornada de trabalho sem
redução de salários
No Brasil, cerca de 31 categorias já reduziram a jornada de trabalho para 40 horas semanais sem redução de salários. Essa redução foi conquistada em negociações coletivas.
No Brasil, cerca de 31 categorias já reduziram a jornada de trabalho para 40 horas semanais sem redução de salários. Essa redução foi conquistada em negociações coletivas.
ARGUMENTOS RELACIONADOS AO TEMPO DA VIDA
14. Opção por tempo livre ou por desemprego
No que se
refere à relação entre aumento da produtividade, redução da jornada de trabalho
e desemprego, dado que são necessárias cada vez menos horas de trabalho para
produzir uma mercadoria, a sociedade pode optar entre transformar essa redução
do tempo necessário à produção em redução da jornada ou em desemprego.
15. Tempo dedicado ao trabalho muito extenso
Além do tempo
gasto no local de trabalho (em torno de 11 horas: sendo 8 de jornada normal +/-
2 de hora extra e +/- 1 de almoço), há ainda os tempos dedicados ao trabalho,
mesmo que fora do local de trabalho, entre eles:
* o tempo de
deslocamento entre casa e trabalho
* o tempo
utilizado nos cursos de qualificação que são cada vez mais demandados pelas
empresas e realizados, normalmente, fora da jornada de trabalho
* o tempo
utilizado na execução de tarefas de trabalho fora do tempo e local de trabalho
(que em muito tem sido facilitada pela utilização de celulares, notebooks e
internet)
* o tempo que
os trabalhadores passam a pensar em soluções para o processo de trabalho, mesmo
fora do local e da jornada de trabalho, principalmente a partir da ênfase dada
à participação dos trabalhadores, que os leva a permanecer plugados no
trabalho, mesmo distantes da empresa
16. Pouco tempo livre
Logo, em
função do grande tempo ocupado direta e indiretamente com o trabalho, sobra
pouco tempo para o convívio familiar, o estudo, o lazer, o descanso e a luta
coletiva.
17. Perda do controle do tempo da vida
As diversas
formas de flexibilização do tempo de trabalho, como a hora extra ou o banco de
horas, além de intensificar o trabalho, têm como conseqüência a perda do
controle por parte do trabalhador seja do tempo de trabalho ou do tempo livre.
Isso porque, na maior parte dos casos, é o empregador que define quando o
trabalhador irá trabalhar a mais ou a menos, sem consulta ou com um mínimo de
aviso prévio, desorganizando assim toda a sua vida.
18. Qualidade de vida
Finalmente, a
redução da jornada de trabalho irá possibilitar que os trabalhadores,
produtores das riquezas do Brasil e do mundo, possam trabalhar menos e viver
melhor. Até para que outras pessoas também possam ter acesso ao trabalho e à
vida, para que possam viver e não apenas sobreviver.
* Os argumentos
foram baseados na nota técnica 66 do DIEESE de abril de 2008.
* Os dados de produtividade do setor Automotivo foram elaborados através dos dados primários do Anuário da Indústria Automobilística Brasileira edição 2009.
* Os dados do dobre custo-de-mão de obra, na produção da indústria foram elaborados através dos dados do Bureau of Labor Statistics - BLS.
* Os dados de produtividade do setor Automotivo foram elaborados através dos dados primários do Anuário da Indústria Automobilística Brasileira edição 2009.
* Os dados do dobre custo-de-mão de obra, na produção da indústria foram elaborados através dos dados do Bureau of Labor Statistics - BLS.
Colaboração de Altair Garcia
Técnico DIEESE - Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo
altairsg@dieese.org.br
Técnico DIEESE - Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo
altairsg@dieese.org.br



Nenhum comentário:
Postar um comentário