São
cerca de 200 mil homens e mulheres no Exército, 60 mil na Marinha e 65 mil na
Força Aérea. Mas a disponibilidade de equipamento para esse pessoal costuma ser
baixa. Faltam recursos para a manutenção e operação.
Dos
cerca de cem navios da Marinha, só metade está disponível. Dos 200 aviões de
combate (caça-bombardeiros), o normal é ter só uns 85 operacionais.
Dos
quase 300 aviões de transporte, só um terço poderia decolar agora. E dos perto
de 2.000 blindados de vários tipos do Exército, só metade conseguiria sair dos
quartéis.
Existe
ainda a questão da obsolescência. O único porta-aviões, de segunda mão, é de
1963 (além de passar a maior parte do tempo no porto, seus caça-bombardeiros
foram projetados nos anos 1950).
O país
tem investido no desenvolvimento e compra de novos equipamentos, mas em
quantidade pequena.
Se algum
inimigo hoje insuspeito atacasse de repente, hipoteticamente, o que poderia
acontecer?
- CENÁRIO 1 - AMAZÔNIA
- CENÁRIO 2 - AMAZÔNIA AZUL
- CENÁRIO 3 - MAIS AMAZÔNIA
- CENÁRIO 4 - FRONTEIRAS
- CENÁRIO 5 - PLANO
CENÁRIO 1 - AMAZÔNIA
"Jovens,
bem-vindos ao Amapá. Soube que entre vocês estão estudantes de várias
disciplinas. História, geografia, ciência política, arquitetura, engenharia.
Ótimo. Embora vocês provavelmente interajam pouco com seus colegas de outras
áreas, aqui é o lugar em que um enfoque multidisciplinar faz sentido. É preciso
entender um pouco de tudo para apreciar essa obra-prima, esse monumento que
ajuda a explicar o motivo de a maior parte da Amazônia ser brasileira."
Os
estudantes continuam em silêncio.
Alguns
olham para a anatomia das colegas mais jeitosas, outros ficam pensando se foi
boa ideia embarcar nessa viagem até o fim do mundo para ver um monte de pedras
empilhadas, algumas moças pensam no efeito que o calor equatorial vai ter na
sua maquiagem.
E,
surpresa, há até alguns que param para digerir o que diz o anfitrião.
"Moças,
rapazes; vocês agora têm o prazer de conhecer uma joia da arquitetura militar
luso-brasileira, a fortaleza de São José de Macapá. E seu simbolismo é tão
forte que seu traçado está na própria bandeira do Estado."
Os
estudantes automaticamente levantam o olhar para uma das bandeiras. Logo em seguida,
olham estarrecidos na direção do mar.
Uma
explosão, um clarão. Novas explosões. Eles saem correndo em várias direções.
Uns poucos têm o bom senso de se jogar no chão ou de se proteger atrás das
muralhas da velha fortaleza. As explosões continuam. A Amazônia está sendo
invadida.
OBSTÁCULO
Um
historiador tinha deixado claro o papel da fortaleza: "Imensa e bem
construída, esta fortificação se ajustou razoavelmente às propostas do marquês
de Pombal para a região, servindo de prova efetiva e tangível de que a Coroa
portuguesa era a proprietária do cabo do Norte e de que qualquer pessoa que
tentasse disputar a posse teria que superar esse gigantesco obstáculo antes de
atingir seu objetivo. A fortaleza passava a ser o verdadeiro 'fecho do Império'
na foz do Amazonas".
Continuando,
o historiador Adler Homero Fonseca de Castro foi preciso: "Em 1863, um
relatório que examinou as fortificações do Brasil teceu novas considerações
elogiosas sobre a posição", "a mais vantajosa e interessante, por
estar situada na foz do norte do Amazonas", apesar de não defender
"totalmente" a entrada do rio.
Embora
esteja obsoleta há mais de um século, a fortaleza, num ataque como o descrito,
não seria o alvo, a despeito de ser uma das antigas "fechaduras" da
região.
Um dos
objetivos era relativamente pequeno e modesto: um navio de patrulha da classe
"G" ali atracado, com deslocamento de apenas 217 toneladas,
comprimento de 46,5 metros e velocidade máxima de 27 nós (50 km/h). O armamento
principal é um modesto canhão de calibre 40 mm de duplo emprego (antiaéreo e
antinavio).
Os 12
navios de patrulha brasileiros da classe Grajaú têm todos nomes começando com
"G", como Guarujá, Guanabara e Gurupi.
Refletem
uma tradição; durante a Segunda Guerra Mundial, a Marinha deu os mesmos nomes
para também pequenos caça-submarinos de fabricação americana, usados para
patrulhar o litoral do país contra submarinos "invasores" no mar
territorial do país vindos da Alemanha e da Itália.
É tudo
muito pouco para defender o extenso litoral do país. Um invasor facilmente
ocuparia as chaves da região amazônica, Macapá e Belém.
CENÁRIO 2 - AMAZÔNIA AZUL
Para
mostrar a importância do mar territorial, a Marinha criou a curiosa expressão
"Amazônia azul".
Mais ao
sul, mais especificamente no sudeste do país, um dos três mais modernos navios
da Marinha do Brasil estava em operação, uma missão de rotina.
A
Marinha adora siglas; logo, os três navios da mesma classe, Amazonas, são
conhecidos como NPaOc, acrônimo para Navio Patrulha Oceânico.
São
navios modernos - os mais novos de todos, com um maior grau de informatização-,
apesar de não serem os navios com maior poder de combate para seu tamanho:
mesmo com mais de 2.000 toneladas completamente carregados, só têm armamento
leve.
Nem
mísseis nem torpedos; e o canhão principal tem calibre 30 mm. Já as fragatas e
corvetas da Marinha têm canhões principais de calibre 114 mm, além de ter
mísseis e armas antissubmarinas.
Os três
NPaOc servem mais a uma função "policial" do que "militar".
Não
foram projetados para a guerra convencional contra uma marinha inimiga, mas
para lidar com problemas mundanos como narcotráfico, pirataria e contrabando. A
Marinha, afinal, tem que proteger instalações como as plataformas de petróleo.
À noite,
essas plataformas parecem inusitadas cidades em pleno oceano. Luzes no
horizonte, contatos no radar.
É
difícil imaginar isso em pleno mar. Mas ali vivem e trabalham milhares de
brasileiros, extraindo do fundo do mar um recurso cada vez mais raro no
planeta.
Isso faz
as plataformas se multiplicarem e, cada vez mais, se aprofundarem em busca do
combustível fóssil.
O navio
classe A estava patrulhando entre dois grandes campos de plataformas quando um
marinheiro observou um clarão no horizonte.
Quase
simultaneamente, um sargento notou um contato no radar se aproximando
rapidamente. Lembrou-se de um treinamento anterior. Parece um míssil vindo na
direção do navio. Como? Não há nenhum exercício planejado!
Seria um
alvo fácil para um ataque surpresa. E o resto da esquadra, concentrada na baía
da Guanabara, seria fácil de achar e atacar.
Claro,
apenas os americanos teriam hoje condições de fazer um ataque destes.
Mas e
se, em um futuro não tão distante, os chineses conseguissem bases no oeste
africano e prosseguissem por algum motivo na sua busca insaciável por recursos
naturais?
CENÁRIO 3 - MAIS AMAZÔNIA
O
veículo, ou "viatura", como prefere o pessoal do Exército, foi
chamado de VBTP-MR Guarani.
Veículo
(ou "Viatura") Blindado de Transporte de Pessoal, Médio, Sobre Rodas.
Produzido em Minas Gerais, projeto em parceria com a empresa italiana Iveco.
Alguns deles estão sendo testados em um lugar incomum: Roraima.
Detalhes
do veículo? Comprimento: 6,91 m /Altura: 2,34 m/Largura total: 2,7 m /Peso
vazio: 14,5 toneladas /Peso carregado: de 17 a 20 toneladas /Velocidade máxima
em estrada: 100 km/h.
Demorou
anos, mas o Exército Brasileiro, o EB, resolveu substituir seus velhos
blindados sobre rodas Urutu e Cascavel, produtos da jurássica empresa (faz
tempos falida) Engesa. Eram bons veículos de seis rodas, exportados para vários
países, usados pelo EB em missões de paz em Angola, Moçambique, Haiti
-lamentavelmente, porém, são obsoletos hoje.
O
Guarani começou a ser produzido em uma versão básica de transporte de
infantaria, levando um grupo de combate de infantes, com uma metralhadora no
teto, de calibre 12,7 mm, de controle remoto.
Mas
também se criou uma versão experimental de "veículo de combate de
infantaria", com um mais parrudo canhão calibre 30 mm; e uma versão para
substituir o Cascavel, um carro de reconhecimento, com canhão calibre 90 mm ou
o mais poderoso 105 mm.
Sejam
quais forem as decisões sobre armamento, ainda pendentes, dois grupos desses
VBTP-MR foram enviados para dois possíveis locais de emprego em guerras
convencionais contra vizinhos, por mais que os vizinhos da República Federativa
do Brasil sejam em geral amistosos.
Com
certeza um dos destinos previstos e previsíveis foi o Rio Grande do Sul.
Esse
sempre foi o local de praxe paras as forças mais móveis do Exército, onde se
concentrou o grosso da cavalaria e da sua versão moderna, mecanizada, os
tanques (que o EB chama de "carros de combate") e os blindados de
transporte de tropas.
Durante
muito tempo se pensou em uma "Blitzkrieg" de blindados argentinos
atacando a região (Uruguai e Paraguai nunca foram ameaças sérias no século 20).
Cenário cada vez mais improvável.
Os
primeiros testes com o Guarani foram feitos no Rio, no campo de provas do
Exército.
Depois
duas pequenas unidades foram enviadas a campo.
E, além
do óbvio Rio Grande do Sul, outro lugar foi Roraima - a Amazônia não inclui
apenas floresta: Roraima tem campos perfeitamente adequados para veículos
militares.
CLAREIRA
Um
pelotão de Guaranis -quatro veículos- fazia uma patrulha perto da fronteira.
Uma opção de organização desse tipo de unidade, ainda não definitiva, inclui um
veículo armado com o canhão de 30 mm, e os restantes com o tradicional 12,7 mm
(a clássica metralhadora "ponto cinquenta", ou.05 polegada).
De
repente saem de uma clareira alguns blindados não identificados. O tenente
comandante do pelotão ordena que os VBTP parem e procurem cobertura possível
atrás das poucas árvores e colinas em torno.
Ele abre
a escotilha para observar melhor, quando vê um clarão e ouve logo em seguida
uma explosão.
O
inimigo avançaria rápido por esses campos com forças blindadas. Supondo que
fossem venezuelanos bolivarianos fanáticos, também tomariam a região de
Essequibo, na vizinha Guiana.
Foi pura
coincidência. Alguém no Exército também resolveu testar na região uma bateria
de artilharia bem especial: o sistema Astros II, da Avibrás, um sistema de
foguetes de múltiplos calibres capaz de atingir alvos a distâncias entre 9 e
300 km, que logo entraria em ação, tornando o resultado do conflito menos
previsível.
CENÁRIO 4 - FRONTEIRAS
Em
vários pontos do país existe outro produto da indústria de defesa nacional em
operação no mesmo momento, um avião de transporte.
Levou
algum tempo para produzi-lo, um pouco mais que o previsto, mas
compreensivelmente, pois o objetivo era substituir um dos aviões mais icônicos,
seminais e clássicos da história, o avião de transporte americano Hercules
C-130.
"O
substituto de um Hercules é outro Hercules", dizia a fabricante, a
Lockheed. A empresa brasileira Embraer resolveu apostar que teria uma opção
melhor: a aeronave de transporte e reabastecimento aéreo de combustível KC-390.
O C-130
é um turboélice de quatro motores; o KC-390 é um bimotor a jato, o primeiro
grande projeto multinacional na área de aviação em que uma empresa brasileira é
a principal envolvida. E os novos aviões estavam voando pelo país em diferentes
missões.
As fronteiras
do país, no mar ou em terra, costumavam ter os fortes como principais barreiras
a uma invasão.
Muralhas
e canhões eram o principal desafio que um inimigo tinha que contornar, assim
como -e principalmente- os homens por trás das defesas.
A ameaça
passou a ter novas dimensões. Um dos novos "fechos" da Amazônia, e
das fronteiras em geral, é uma outra classe de aviões da Embraer, os EMB 145
ISR -aviões-radar, de vigilância área e de sensoriamento remoto.
A
empresa usou como plataforma para o equipamento eletrônico seu bem-sucedido
avião comercial ERJ 145 e criou a dupla R-99 e E-99.
O EMB
145 Multi Intel, ou R-99, é voltado para sensoriamento remoto, e o EMB-145
AEW&C (do inglês "Airborne Early Warning and Control"), ou E-99,
é um avião-radar de alerta aéreo antecipado e controle de tráfego aéreo.
Aviões-radar
dão informações. Mas é preciso que existam aviões de combate aptos a
utilizá-las.
A
depender da ameaça, não precisam ser caças de última geração: aviões de
traficantes e contrabandistas podem ser visados por aeronaves de ataque leve
como o Embraer EMB-312 T-27 Tucano (um sucesso internacional de vendas: cerca
de 650 aeronaves operando em 15 forças aéreas mundo afora) ou seu sucessor, o
EMB 314 A-29 Super Tucano -ou ALX.
O Super
Tucano também tem uma função de ataque a guerrilhas, ou
"insurgentes", como é moda defini-las hoje. Tem sido usado nessa
função pela Força Aérea da Colômbia.
MÍSSIL
O par de
Super Tucanos patrulhava a fronteira sobre a floresta. Impossível identificar
qualquer coisa debaixo das árvores.
O
avião-radar, contudo, tem uma visão mais precisa e detalhada. É possível
"enxergar" parte do que acontece no solo.
De
repente surge um clarão na tela. Que se repete visualmente, na direção dos dois
aviões de ataque leve. Um míssil terra-ar, certamente disparado do ombro, da
classe do antigo soviético SAM-7, ou do americano Stinger. Seja qual for o
míssil, é barato, é simples de operar, e um grupo de narcotraficantes pode
usar.
Os dois
Tucanos percebem a ameaça e começam manobras evasivas.
Meio-dia,
terça-feira, 26 de fevereiro de 1991; cerca de 40 homens realizam uma incursão
em território brasileiro.
Eles
atacaram um destacamento do Exército na margem do rio Traíra, na fronteira
entre Brasil e Colômbia.
Durante
a ação, a unidade brasileira de 17 homens teve três soldados mortos e nove
feridos; armas e equipamento brasileiros foram capturados. Uma retaliação
depois recuperaria parte do armamento roubado e mataria parte dos
"insurgentes".
O
episódio deixa claro a "área cinzenta" entre tráfico de drogas,
guerrilha e banditismo puro em partes da fronteira do país, retratada também em
artigo do coronel Álvaro de Souza Pinheiro ("Guerrilla in The Brazilian
Amazon", Foreign Military Studies Office, Fort Leavenworth, KS., 1995).
HISTÓRIA
Um pouco
de história: em 1624 os holandeses atacaram e tomaram Salvador.
Perderam
no ano seguinte. Atacaram e tomaram Recife e Olinda em 1630; só foram expulsos
em 1654. Mesmo antes disso, tinham iniciativas na Amazônia -pequenos fortes e
feitorias-, assim como ingleses, franceses e mesmo irlandeses.
Franceses
fundaram, na prática, duas cidades brasileiras, duas capitais de Estados: Rio
de Janeiro e São Luís. Foram expulsos pelos portugueses.
Em 1710
e 1711, atacaram de novo o Rio, mas apenas para saquear -com sucesso, na
segunda vez.
Os
holandeses queriam dominar o comércio do açúcar, e também o dos escravos
necessários para sua produção (por esse mesmo motivo chegaram a dominar Luanda,
em Angola, antes de serem rechaçados).
Novos
invasores podem ir atrás de outros recursos. Como o petróleo do pré-sal.
Biodiversidade amazônica?
Difícil;
a biotecnologia resolve as coisas com mais facilidade nos laboratórios, sem
precisar invadir um país para ter acesso a folhas e formigas.
Recurso
mais raro e valioso no futuro: a simples água doce. Na Amazônia está a maior
reserva do mundo, que pode ter cada vez mais sede, dependendo do aumento da
população e da mudança climática.
CENÁRIO 5 - PLANO
"Em
22 de fevereiro de 1942, dois meses e meio após o ataque japonês a Pearl
Harbor, os Estados Unidos invadiram e ocuparam o Nordeste do Brasil. Após 12
dias de navegação a partir de Hampton Roads, Virgínia, EUA, uma força naval de
apoio de fogo -incluindo o couraçado USS Texas (BB-35), e o 11º Grupo de
Aviação dos fuzileiros navais embarcado no porta-aviões USS Ranger (CV-4), e um
comboio de navios de transporte carregados de equipamento de combate para a
força de desembarque de batalhões da 1 ª Divisão de Fuzileiros Navais e 9ª
Divisão do Exército-, apareceu na madrugada ao largo da cidade de Natal na
'protuberância' a leste do Brasil", foi a descrição de um historiador da
invasão que poderia ter acontecido, e foi planejada, mas não houve, graças à
diplomacia ("Invade Brazil?!", por Michael Gannon, United States
Naval Institute Proceedings, Vol. 125, No. 10, Oct. 1999).
Segundo
Gannon, o "problema" do governo americano com o Brasil era a ditadura
liderada por Getúlio Vargas e a noção de que a maior parte das Forças Armadas,
especialmente o Exército, era a favor do eixo Berlim-Roma-Tóquio.
O
curioso, como ele mostra, é que o plano de invasão poderia redundar em um
grande fracasso.
Nem
tanto pela competência das Forças Armadas brasileiras, mas pela falta de
experiência americana em desembarques anfíbios e pelas praias de difícil acesso
do Nordeste por embarcações ainda não testadas.
O número
de tropas era pequeno para lidar com eventual insurgência. Os EUA poderiam ter
tido no Brasil em 1942 o que teriam no Iraque depois de 2003.
Preservado
hoje no Estado que lhe deu o nome, o USS Texas foi veterano da Primeira Guerra
Mundial e da Segunda. Seus canhões deram apoio de fogo em operações
importantes, como a invasão da África do Norte em 1942, a da Normandia em 1944
(o "Dia D") e depois, no Pacífico,contra os japoneses em Iwo Jima e
Okinawa, em 1945.
Recebeu
cinco "battle stars" ("estrelas de batalha") por operações
como essas. Para sorte dos brasileiros, Natal não entrou nessa lista.

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