segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O PODER DAS PALAVRAS: HITLER E GOEBBELS INCENDEIAM A ALEMANHA


Hitler e Goebbels: os mais persuasivos
“Hitler reage à vibração do coração humano com a delicadeza de um sismógrafo. (…) E com isso consegue, com uma certeza que nenhum dom consciente poderia dotá-lo, transformar-se num alto-falante proclamando os mais secretos desejos, os menos permissíveis instintos, os sofrimentos e revoltas pessoais de toda uma nação. Adolf Hitler entra numa sala. Ele fareja o ar. Por um minuto ele apalpa, sente o seu caminho, percebe a atmosfera. De repente, ele explode.”
— Otto Strasser, ex-membro do partido nazista e inimigo pessoal e político de Hitler, 1940.
Romanticamente arrebatada pelos incendiários discursos de Hitler e Goebbels, reputados muitas vezes como os responsáveis pelos discursos mais inflamados e eloquentes da História, a Alemanha emerge do caos e surpreende tornando-se a mais poderosa máquina de guerra do planeta. Direta e indiretamente, todo sentimento de angústia, revolta e revanchismo alemão foi canalizado através dos holofotes do Partido Nazista – e Hitler acontece. Muitas das suas lições – teóricas e práticas – foram adaptadas e são aplicadas pelas mídias contemporâneas.
Ao término da Primeira Guerra Mundial (1918), a Europa encontrava-se arrasada e suas antigas potências dependentes de Estados estrangeiros. No mais significativo, brutal e desastroso capítulo da trama, encontrava-se o Tratado de Versalhes (1919). Sob o crivo deste, a Alemanha foi submetida às mais duras sanções por ter sido considerada a única responsável pela guerra — Hitler e Goebbels, astutamente, canalizariam o ressentimento alemão.
À Alemanha foram impostas sanções de toda ordem mediante o demasiado Tratado de Versalhes: redução do efetivo militar (limitado a 100 mil homens) com entrega de material bélico médio e pesado (proibição da fabricação deste); sérias privações à Marinha de Guerra e entrega de significativa parte da Mercante; proibição da Força Aérea; cessão dos territórios ultramarinos; perda de partes do território pátrio; e o pagamento de indenizações exorbitantes aos vencedores.
As consequências do Tratado de Versalhes levaram mais caos e revolta ao já conturbado pós-guerra alemão: além das imensas implicações ao fim da Grande Guerra (1918) e da dissolução Império Alemão (1918), a pandêmica gripe espanhola (1918-19) assolava o planeta e a instabilidade política alemã era gritante.
A década de 1920, para Alemanha, foi incerta e muitas vezes trágica (com acirradas disputas políticas e assassinatos). Ao seu final, um novo baque: a República de Weimar (1919-33) foi terrivelmente abalada pela chegada da “Quinta-Feira Negra” — o Crash de Wall Street (quebra da bolsa de 1929).
“A Alemanha, mais do que talvez qualquer outra nação da Europa, havia sido abalada pela depressão mundial. O país estava completamente aberto a novas soluções políticas. Poderia o comunismo, o socialismo ou o capitalismo oferecer uma resposta, ou havia uma solução caseira (…)”. Em tempo de fortes crises, soluções românticas costumam seduzir os homens. Os alemães, por sua singular história (“aguerrida”), desejavam um forte líder, alguém capaz de restaurar a ordem sócio-política, de salvar a economia.
Em meio ao caótico cenário alemão, as explosivas palavras de Adolf Hitler e Joseph Goebbels ecoaram incendiando o coração das massas de modo mítico — arregimentaram centenas, milhares, milhões de adeptos Alemanha a fora. Hitler e Goebbels, em extrema sintonia, irradiaram suas mensagens de modo uníssono e, em 30 de janeiro de 1933, Hitler ascendeu ao poder — fato ocorrido pelos degraus da democracia.
Com as rédeas do poder, o Ministério Nacional para Esclarecimento Público e Propaganda foi criado sob a chefia de Goebbels, que também alçou a presidência da Câmara de Cultura do III Reich. “No Ministério, controlava a imprensa, o rádio, o teatro, os filmes, a literatura, a música e as belas artes. O objetivo de sua propaganda na mídia era criar esperanças, citando paralelos históricos e fazendo outras comparações, conjurando leis de história pretensamente imutáveis ou, como último recurso, referindo-se a algumas armas secretas”.
Diante do ainda hoje destaque dedicado à figura de Hitler, ocorre o “esquecimento” ou redução do papel desempenhado por Joseph Goebbels. Este, além de amigo íntimo e fiel escudeiro do Führer, foi oresponsável pela idealização do fenômeno hitlerista. O ministro nazista fomentou as massas com sonhos e ambições direcionados à adoração de um homem (Hitler), que prometia forjar um novo império milenar a partir de Berlim (futura Germânia).
“Goebbels, em seus discursos, normalmente falava sobre Hitler, enaltecendo suas virtudes e o glorificando. Outro item fundamental eram os livros e revistas, mostrando Hitler sendo adorado pelo público, especialmente pela juventude alemã e os impressos que mostravam a humilde nobreza do Führer, ao passear com seu cachorro ou cumprimentar a multidão em paradas e desfiles.”
Hitler e o brilhante Goebbels, juntos, revolucionaram o modo de propagar ideias — embora estas já existissem na teoria, nunca haviam sido executadas com tamanha competência e abrangência. A difusão alemã foi ampla e profunda, sempre endeusando Hitler e a ideologia nazista, sempre fortalecendo a unidade nacional ao exacerbar o moral germânico e demonizando todo aquele julgado inimigo da mãe alemã. Como em todo regime que pretenda ser, no mínimo, autoritário, são determinados inimigos públicos e a eles são atribuídos todo mal possível. Destarte, a “tormenta ariana” irrompeu com tremenda fúria em detrimento daqueles reputados como responsáveis por todo e qualquer infortúnio que pôde ser suscitado — foi terrível.
“A propaganda de Hitler alcançou uma escala sem precedentes, sendo a ela atribuída grande relevância no que tange à formação de toda a imagem do Führer bem como em todo apoio do povo alemão à campanha nazista. (…) Tal propaganda nazista foi, embora maligna, de fundamental importância para a ciência, visto que através dela torna-se possível observar o poder e a influência que tal técnica pode exercer sobre seu interlocutor.” (SPERANZA, 2013, s/p)
A propaganda de Hitler, acima de tudo, foi popular e sempre apelou para o lado emocional. Embora utilizada para o mal, suas lições foram absorvidas e aperfeiçoadas pelas mídias. “Após Hitler, a propaganda vem sendo amplamente utilizada, como se observa em diversos episódios posteriores, como a Guerra Fria, em que Estados Unidos e a extinta URSS procuravam promover suas ideologias (capitalismo e socialismo) aos demais países do mundo.”
Pouco mais de seis anos após o ingresso no poder, Hitler se lançaria à guerra (1939). Nesta, a humanidade, sem dúvida alguma, imergiu em seu mais profundo período de terror. Ainda hoje, historiadores e pesquisadores correlacionados se perguntam como a Alemanha, um país julgado civilizado (até para a época), pôde incorrer em algo tão dramático e inesquecível como fora o Nazismo.
Inframencionados, encontram-se alguns fragmentos pinçados a respeito da retórica de Hitler:
“Ele era um homem transformado e possesso. Estávamos na presença de um milagre”.
— Francis Yeats Brown, oficial do exército indo-britânico.
“Havia ocasiões em que ele dava uma impressão de infelicidade, de solidão, de uma busca íntima… Mas, de repente, voltava frenético para o que estava fazendo com a autoridade desembaraçada de um homem que nasceu para a ação”.
— Kurt Ludecke, “ex-playboy” e membro do partido nazista.
“Era realmente um terreno fértil para se plantar uma lenda ou um mito”;
— Walter C. Langer.*
“Todas as suas palavras saem carregadas de uma poderosa corrente de energia. Há ocasiões em que parece que elas são arrancadas de suas entranhas e com isso causando-lhe indescritível angústia”; e
— Walter C. Langer.**
“Inclinando-se na tribuna como se estivesse tentando se projetar na consciência daqueles milhares de pessoas, ele mantinha a multidão e a mim debaixo de um poder hipnótico… Era claro que Hitler já estava sentindo a reação… Suas palavras eram como um látego. Quando parou de falar, seu peito ainda arfava de emoção”.
– Walter C. Langer.***
* ** ***Walter C. Langer, psicanalista estadunidense e autor da análise oficial de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial – Escritório de Serviços Estratégicos (OSS). Previu o suicídio de Hitler.
[VÍDEO] Discurso legendado de Hitler à Juventude Hitlerista: http://youtu.be/tqfhB0Ysa8U
[VÍDEO] Discurso legendado de Goebbels incitando a Guerra Total: http://youtu.be/tc2unpvOiIM
IMAGEM: Fotomontagem.
REFERÊNCIAS:
ALMEIDA, ANDRÉ LUIZ. BIOGRAFIA DE ADOLF HITLER.
ALMEIDA, ANDRÉ LUIZ. BIOGRAFIAS DA SEGUNDA GUERRA – JOSEPH GOEBBELS.
BLAINEY, GEOFFREY. UMA BREVE HISTÓRIA DO SÉCULO XX. SÃO PAULO, SP: FUNDAMENTO, 2008.
GRANDES GUERRAS. A PROPAGANDA NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL.
HÉLIO. HITLER – A BIOGRAFIA POR ALAN BULLOCK.
HOBSBAWM, ERIC. A ERA DOS EXTREMOS: O BREVE SÉCULO XX: 1914-1991. TRAD. MARCOS SANTARRITA. 2 ED. 46 IMP. SÃO PAULO: COMPANHIA DE LETAS, 2012.
LANGER, WALTER CHARLES. RELATÓRIO SECRETO DA II GUERRA MUNDIAL, A MENTE DE ADOLF HITLER. TRAD. LUIZ CORÇÃO. RIO DE JANEIRO: ARTENOVA, 1973.
MASSON, PHILIPPE. A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL: HISTÓRIA E ESTRATÉGIAS. TRAD. ANGELA M. S. CORRÊA. SÃO PAULO: CONTEXTO, 2011.
SPERANZA, HENRIQUE DE CAMPOS GURGEL. PUBLICIDADE ENGANOSA E ABUSIVA.

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